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21/05/2008 - Papa pede aos bispos: ir ao encontro dos movimentos com muito amor
Entrevista com Arturo Cattaneo, professor de Direito Canônico em Veneza
Categoria: Palavra da Igreja

 
De 15 a 17 de maio se celebrou em Rocca di Papa, perto de Roma, o II Seminário de estudo para os bispos sobre o tema dos movimentos eclesiais, cujo significativo título – Peço-vos ir ao encontro dos movimentos com muito amor – foi tomado de uma recente frase de Bento XVI aos bispos alemães.

As duas principais palestras foram confiadas a Piero Coda, professor ordinário de Teologia Sistemática na Universidade Pontifícia Lateranense de Roma e presidente da Associação Teológica Italiana, e ao sacerdote Arturo Cattaneo, professor de Direito Canônico em Veneza, que falou de Movimentos e novas comunidades nas Igrejas particulares.

Dom Cattaneo quis responder às perguntas da Zenit sobre o tema.

–Em Pentecostes de 1998, João Paulo II se dirigia aos movimentos eclesiais recordando que seu nascimento ofereceu à vida da Igreja uma novidade inesperada, inclusive rompedora» e que isso não deixou de suscitar interrogantes, mal-estares e tensões. Dez anos depois, que nos pode dizer ao respeito?

–Pe. Cattaneo: Eu recordaria sobretudo que naquela ocasião o Papa se dirigiu aos movimentos afirmando que, após um período de prova e de verificação, estava se abrindo diante deles, «uma etapa nova: a da maturidade eclesial». Nos dez anos transcorridos desde então, esta maturidade – também graças à solicitude de Bento XVI – foi consolidando-se. Aprecia-se especialmente isso quanto à sua inserção nas Igrejas particulares. Isso não significa naturalmente que todos os problemas tenham sido resolvidos, também porque a Igreja – como organismo vivo – exige que cada realidade se atualize continuamente.

–O que torna difícil a solução dos problemas ainda existentes?

–Pe. Cattaneo: As dificuldades derivam freqüentemente dos preconceitos, incompreensões por parte dos fiéis da comunidade local, por um lado, e de imprudência, inexperiência ou exuberância por parte dos membros dos movimentos, por outro. Também – como observou o Pe. Jesús Castellano – os carismas não existem em estado puro, e às vezes em nome dos carismas podem se realizar abusos. É necessário, portanto, uma contínua obra de purificação e, por parte do bispo, precisa-se não só de promoção das riquezas carismáticas, mas também discernimento, vigilância e correção de eventuais abusos.

–Como se podem superar tais dificuldades e tensões?

–Pe. Cattaneo: Principalmente com o diálogo animado pela caridade, com um pouco de paciência e de boa vontade para compreender e fazer-se compreender. Todos devem – como observa o cardeal Ratzinger – deixar-se educar pelo Espírito Santo, para que possam ter «o consenso interior à multiplicidade das formas que a fé vivida pode assumir ». As duas partes – movimentos e comunidades locais – devem encontrar o caminho que conduz àqueles comportamentos dos quais Paulo fala no hino à caridade.

–O senhor falou aos bispos. Pode nos dizer algo do que lhes disse?

–Pe. Cattaneo: Eu sintetizei o conteúdo em quatro pontos, em correspondência com as características essenciais da Igreja, que são um dom, mas também uma tarefa. Cristo, por meio de seu Espírito, concede à Igreja ser una, santa, católica e apostólica, e a chama a realizar cada vez melhor cada uma destas características. Cada bispo diocesano deve promover na Igreja a ele confiada a unidade na pluralidade, a catolicidade no senso de abertura à Igreja universal, assim como a apostolicidade que implica a complementaridade entre instituição e carisma. Atuando assim, o bispo contribuirá para a santidade de sua Igreja particular como primeiro servidor do Espírito.

–Pode nos explicar brevemente em que sentido isso garantiria a integração dos movimentos eclesiais?

–Pe. Cattaneo: O serviço do bispo à unidade deve ser realizado na consciência de que a diversidade de ministérios, carismas, formas de vida e de apostolado não é um obstáculo para a unidade da Igreja particular, mas uma riqueza. Deve-se considerar que o caráter de comunhão, precisamente da Igreja, comporta, por uma parte, a mais sólida unidade e, por outra, uma pluralidade e uma diversificação que não são obstáculos para a unidade. Uma compreensão limitada da unidade levaria a uma uniformidade pastoral que tornaria difícil a inserção e a ação apostólica dos diversos movimentos.

Por outra parte, a catolicidade da Igreja particular tem uma especial relevância para o tema que estamos tratando. Uma das características predominantes dos novos movimentos eclesiais é sua dimensão universal. Como realidade da Igreja universal, em virtude da mútua interioridade entre Igreja universal e particular, os movimentos estão chamados a atuar nas Igrejas particulares, enriquecendo-as e preservando-as do perigo do «particularismo» e do «localismo».

–Não há também um perigo oposto, o de que um movimento não se radique suficientemente na Igreja local?

–Pe. Cattaneo: Certamente, a característica universalidade dos movimentos não deve fazê-los esquecer que a Igreja possui também uma dimensão particular essencial. Os movimentos serão, portanto, plenamente eclesiais também na medida em que se radiquem nas diversas Igrejas particulares. A visão universal da Igreja, que representa uma das contribuições valiosas dos movimentos às Igrejas particulares, se deformaria, convertendo-se em uma visão platonicamente ‘universalista’, e isso deteria a atenção à realidade e os problemas da Igreja particular. Também isso é amor pela Igreja. Os membros dos movimentos, permanecendo fiéis ao próprio carisma, deverão procurar inseri-lo criativamente na vida da respectiva Igreja particular, sem limitar-se a estar presentes nos organismos diocesanos. O campo de ação eclesial próprio dos fiéis leigos é o da vida familiar, social, profissional, política, cultural, esportiva, etc. Com esta presença capilar na vida da diocese, evitarão que o carisma do movimento possa aparecer nela como um corpo estranho. É algo análogo à inserção em uma orquestra de um novo instrumento musical que, ainda conservando suas características, se adapta às particularidades que lá encontra, com o fim de produzir uma verdadeira sinfonia, e isso graças à ação do diretor da orquestra, que, em nosso caso, é o bispo.

–E como entender a complementaridade entre instituição e carisma?

–Pe. Cattaneo: Entre instituição e carisma não pode haver contraposição – como não a há entre Cristo e o Espírito – mas complementaridade, cuja posta em ato corresponde de modo especial ao bispo diocesano, que deve evitar um excessivo e burocrático desenvolvimento da dimensão institucional em detrimento da carismática. Ao refletir sobre a inserção dos movimentos nas Igrejas particulares, existe a tentação de referir-se de modo inapropriado ao binômio instituição-carismas, deixando-se levar por uma dialética claramente inaceitável. Em várias ocasiões, João Paulo II sublinhou que o aspecto institucional e o carismático da Igreja «são co-essenciais». Deve-se, portanto, afirmar que em cada realidade da Igreja se encontram tanto a dimensão institucional como a carismática, ainda que em grau diverso. Seria então equivocado conceber as estruturas pastorais diocesanas como meras organizações institucionais, como também seria equivocado colocar os movimentos eclesiais em um âmbito puramente carismático sem referências institucionais.

–E qual seria a responsabilidade do bispo com relação à promoção dessa complementaridade?

–Pe. Cattaneo: A importância de que o ministério sagrado seja entendido e vivido carismaticamente foi sublinhada por Ratzinger, observando, entre outras coisas, que só assim não se dá nenhuma limitação institucional: subsiste, pelo contrário, uma abertura interior ao carisma, uma espécie de ‘olfato’ para o Espírito Santo e sua ação [...] e se encontrarão vias de fecunda colaboração no discernimento dos espíritos. A Igreja tem certamente necessidade de estruturas organizativas, também de direito humano, mas se tais instituições se tornam muito numerosas e preponderantes, elas colocam em perigo a ordem e a vitalidade de sua natureza espiritual. A Igreja deve verificar continuamente seu conjunto institucional, para que não se torne excessivamente pesado, não limite em uma armadura que sufoque a vida espiritual que lhe é própria e peculiar.

–O senhor concluiu falando do bispo como servidor do Espírito. Em que sentido?

–Pe. Cattaneo: O bispo é o primeiro ministro do Espírito Santificador. Exerce uma função de moderador, de episkpé, o serviço do Espírito de Cristo, velando para que as diversas iniciativas apostólicas originadas pelos carismas sejam desenvolvidas na concórdia e contribuam para a edificação da Igreja, na fidelidade à tradição apostólica. Sua potestade não é entendida como o centro de cuja plenitude saem todos os ministérios e as iniciativas apostólicas em sua Igreja, mas como o centro que unifica, coordena, anima, promove e modera, sempre consciente da responsabilidade de seguir a ação multiforme do Espírito.


Jesús Colina - Zenit.org.br


 
     
   
 
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